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Exposição Magma  - Março 2017 - A7MA Galeria

Flertar o Magma

Martin Heidegger, em seu livro seminal “Ser e Tempo”, sugere que para recebermos o ser, é preciso antes livrar-nos das esferas subjetivas que configuram a personalidade mundana. Só assim, para ele, é que acessamos a fonte onde jorram todas as possibilidades de mundo e ficamos expostos à “clareira do ser”.

Em “Magma”, Marcos ˚Enivo novamente põe a nu as estratégias para se realizar esta empreitada. Cada vez mais imbuído da consciência do abandono de sí, desde “Tempo Novo” passando pelo “Âmago”, ele nos põe em relação íntima com a biologia originária. A sua nova mostra reapresenta este traquejo de sua consciência através de dois momentos pictóricos, onde o primeiro recolhe e atravessa a vida social humanizada: infância e tudo aquilo que se pode juntar a partir daí; e o segundo abandona esta primeira instância para mergulhar na lava da vida, na via onde ela passa: imaterialidade aórgica, energética e ondulatória alinhada às vontades da terra, indiferentes e anteriores aos acordos humanos. Esta travessia que parte da construção de um “Si” para em seguida dissipá-lo no DNA terrestre, de onde advém os seres, é o que chamamos de potência da arte. Em outras palavras, trata-se de estar integralmente disponível para o que a criação nos sugere e, desse eterno flerte, captar novas maneiras de ser dando visibilidade à invisibilidade, tornando visível o invisível. Esta, através das mãos dos artistas presentes - que abrem mão de ser para serem canais, - é a obra da arte.

Através de uma espécie de sondagem ctônica, Enivo se depara com a fatura de sua pintura. Na arqueologia das camadas que se apresentam, no espanto de tê-las visto, ele delineia a anatomia imaginária e dela concebe percursos corpóreos imprevistos. “É completamente possível viver num mundo inteiramente imaginado”, nos diz a poeta Maria Gabriela Llansol, e é por isso que podemos dizer que ele, quando pinta, trabalha um corpo inédito. É isso que nos faz habitar o gesto contido no cerne do chamado artístico.

Uma formulação para a condição dualista desta arte-magma seria a ideia de Intensa fragilidade. Sabemos que a cura tem muito a ver com a consciência, curar-se de algo é tornar-se de certa maneira consciente das luzes e sombras que nos configuram. É a partir daí que podemos conceber um corpo em harmonia com a substância. O sofrimento surge quando o fluxo da vida é interrompido, quando os agires discordam do jorro vital. Quando aceitamos conviver com as escuridões mais profundas sem grandes entraves é que alçamos à altivez.

Sentimos que o caminho da cura passa por aliar-se aos monstros internos tornando-os seres amigáveis e úteis, fazendo de nossas dores um estímulo para permanecermos agindo em busca dos ritmos benfazejos. Sorte daqueles que conseguem imaginar um corpo novo, renovado nas águas devaneantes, onde as paixões que cercam os arquétipos de nossa pessoalidade se diluem no amor inominável. Sobretudo, o que vemos aqui é uma pintura apaixonada, carregada de intensidade e gestos enérgicos dignos de um Francis Bacon, onde a fragilidade é reinvestida de potência transformadora.

Enquanto o mundo parece que se fecha, a terra ainda suscita vastidão. A intencionalidade da arte-magma atende ao chamado terrestre, convidando-nos a (re)configurar-nos no colo da mãe. Através de uma colcha de retalhos, ela reposiciona a arte na esfera do sagrado, forçando-a a reagir como uma zona de anteparo e cuidado humano. Em tempos que nos vemos cercados de totalizações, os artistas, mais do que nunca, são levados a ir além dos espetáculos, chegando a soluções que realmente transcendam as mazelas do comum. Aqui está a intuição, àquilo que chamamos de consciência em arte, do trabalho incansável do Ovine-enivO: deixar falar a língua da divindade animal, feminina, viva, sobrepondo-a acima da fala morta e objetiva do cotidiano hominizado. Aglutinando informações colhidas na língua primeira, primitiva, ele inspira surgimentos e ressurgimentos na objetividade da segunda . Esta é a sua prática, seu hábito e sua excelência: o que se passa na superfície do ser ecoa até o seu princípio, pois o ser se manifesta na presença, ele é aquilo à que estamos disponíveis.

                                                                                                                                                                                                                                  Bruno Pastore

                                                                                                                                                                                                                                    Março 2017

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